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Carta de um cão a um humano abandonado

(A PSICOLOGIA DO ABANDONO)

Esta carta é para ti, para o humano sem Ser que me abandonou fria e cruelmente, numa tarde de inverno gélida, quando já eu estava muito doente e velhote, depois de uma vida de negligência. O corpo, cansado, estava coberto de pulgas, carraças, um tumor, uma fratura antiga na anca e uma hérnia gigantesca. Ainda assim eu, de coração puro e amoroso, confiava em ti e desejava estar contigo. Sabia que não era por mal que eu estava tão maltratado, sabia que o teu coração estava ainda mais maltratado que o meu corpo.

Naquele dia puseste-me no teu carro escuro e eu pensei que íamos finalmente passear juntos! Que alegria senti!! Depois de um bom bocado abriste a porta e eu saí.  Qual não foi a minha surpresa ao ver que entravas no carro e te ias embora. Corri tudo o que pude atrás de ti, mas a fratura na anca não me permitiu seguir. Pensei que voltarias rapidamente, mas não foi assim. Pensei que te terias perdido, e que ainda regressarias. Mas nunca pensei que me poderias abandonar porque eu jamais faria isso contigo, apesar de teres sido um responsável que muito deixou a desejar. Não regressaste nunca. O tempo passou e com ele a minha esperança sucumbiu. Sobrevivi com muita dificuldade e ninguém sabe como nunca fui atropelado. Então, não só tinha o corpo ferido, mas o que é mais triste, também o coração e a alma. Pensei que já nada tinha sentido e que deixar-me levar nos braços da Morte seria um bálsamo para a minha dor.

Mas como nada dura para sempre, um dia um milagre aconteceu e o sol sorriu para mim. Um Ser humano de bom coração viu-me e sentiu compaixão do estado lastimável em que me encontrava. Levou-me consigo e tratou-me do pelo, da pele, da anca, da hérnia…devolveu-me a dignidade e eu renasci das minhas próprias cinzas. Como se isso fosse pouco, esse Ser humano maravilhoso ajudou-me a encontrar não uma casa, uma família e uma vida digna, mas A MINHA casa, A MINHA família e uma vida digna.

Sabes humano sem Ser, atualmente, quando penso em ti, sinto muita compaixão. Sei que o que fizeste comigo é o que fazes contigo. Sei que no fundo és um infeliz, um desgraçado, uma pessoa que é incapaz de amar e ser amado. Sei que só me podes fazer a mim o que te fazes a ti próprio. Maus-tratos, negligência, desamor e abandono são o pão nosso de cada dia do qual te alimentas. Como não sentir piedade de uma criatura tão infeliz ao ponto de se abandonar a ela mesma constantemente? Eu só fui um reflexo, um espelho, para a podridão do teu coração. Pensavas que me fazias mal, mas, em última instância a grande vítima és e sempre serás tu. Não te podes libertar de ti nem da maldade que te habita, a não ser que assim o desejes. És uma vítima de ti mesmo e acabarás por morrer afogado no teu próprio veneno, mais cedo ou mais tarde. Algumas vezes ouvi alguns humanos dizerem “aqui se faz e aqui se paga”. Acho que tem a ver com isto.

Quanto a mim, livre de ti, conheci a real felicidade. Tenho uma família Ser humana, canina e felina que me ama e que SEI, não me abandonará jamais. Tenho todos aqueles mimos, cuidados e momentos de plenitude que nunca conheci contigo e que tu nunca conhecerás. O melhor que fizeste por mim foi me deixar naquele dia à mercê da minha sorte. Quiseste que morresse, mas renasci. Estou velho, mas mais jovem e forte que nunca. O meu corpo está curado e, mais importante ainda, o meu coração e a minha alma cantam em agradecimento e júbilo pela primeira vez. Estou vivo humano sem Ser e, porque sou infinitamente mais amoroso que tu, só posso sentir compaixão por ti.

Só posso desejar-te que Deus te proteja de ti,

Rita